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J.P. Morgan: a retomada do M&A global e o valor que ainda escapa às planilhas

O J.P. Morgan Global M&A Outlook 2026 confirma uma virada importante no mercado de transações corporativas. Depois de dois anos de retração, o volume global de M&A voltou a crescer com força, especialmente nas chamadas mega-deals, acima de US$ 10 bilhões.

A explicação clássica está nas condições financeiras: juros em queda, liquidez abundante e o apetite crescente dos fundos de private equity, que hoje acumulam mais de US$ 7,5 trilhões em dry powder.

Mas o relatório revela algo mais profundo: a escala, sozinha, não explica o valor. As operações que efetivamente geraram prêmio de mercado foram as que apresentaram coerência estratégica e simbólica; uma identidade clara entre propósito, narrativa pública e a entrega operacional de tudo aquilo que as marcas simbolizam.

O estudo também destaca o papel do ativismo de acionistas, que vem forçando companhias a alinhar discurso e execução, propósito e performance. Esse movimento ecoa diretamente o que discuto em BrandingLeaks: coerência simbólica virou critério financeiro, não apenas reputacional.

Outro achado relevante do relatório é o impacto estrutural da inteligência artificial. A “onda transformadora” de IA alterou a precificação de empresas em todos os setores: multiplicadores de EBITDA se nivelaram entre tecnologia e indústrias diversificadas, e 43 % de todo o volume global de M&A em 2025 envolveu negócios híbridos, que combinam manufatura e infraestrutura de dados.

Constata-se que o valuation passou a precificar potencial de aprendizado e adaptação, não apenas ativos tangíveis.

Por fim, a J.P. Morgan aponta a crescente importância dos temas regulatórios e geopolíticos. Segurança nacional e resiliência de cadeias tornaram-se drivers de valuation, o que reforça que a percepção de risco sistêmico, e não apenas o risco contábil, determina o preço final das transações.

Esses achados dialogam diretamente com as teses do livro O Que Faltava ao Valuation: a de que o valor nasce antes dos números, na coerência simbólica que sustenta cada ativo intangível.

Como defendo no livro, valuation é a tradução financeira de um significado que o mercado reconhece e precifica antes de mensurar.

O relatório da J.P. Morgan apenas confirma o que a nossa prática tem mostrado:

investidores tem seguido o significado, bem antes de seguirem os números.

José Roberto Martins, MSc. é especialista em valuation de marcas e ativos intangíveis. Autor de BrandingLeaks e Valuation’s Missing Piece, assessora em M&A, estratégia de marca, capital simbólico e litigâncias relacionadas.

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