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EUIPO IP-Backed Finance: entre o valor invisível, a dificuldade de capturá-lo e alavancá-lo.

EUIPO IP-Backed Finance: entre o valor invisível, a dificuldade de capturá-lo e alavancá-lo.

Há um desalinhamento silencioso no centro da economia contemporânea.

Nunca tivemos tantos ativos intangíveis concentrando valor; marcas, tecnologias, IAs, dados e propriedade intelectual. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil transformá-los em instrumentos financeiros plenamente aceitos.

Esse descompasso não é apenas técnico. Ele é estrutural.

Como evidencia o relatório “IP-backed finance in Europe: State of Play and Future Perspectives – Towards a Functional European IP Finance Market”, publicado pela EUIPO, os ativos intangíveis representam hoje a maior parcela do valor corporativo global, podendo chegar a aproximadamente 90% em economias mais avançadas. Ainda assim, eles permanecem amplamente subutilizados como base para financiamentos estruturados.

Embora não seja a modernidade que aparenta, a ideia de IP-backed finance recrudesce como resposta a essa fricção; uma tentativa de alinhar o sistema financeiro à natureza real dos ativos que cada vez mais sustentam valor.

A ideia, em si, continua a ser simples: utilizar os ativos de propriedade intelectual como base para crédito, garantias e estruturas financeiras mais sofisticadas de captação.

Mas a simplicidade termina aí.

O problema nunca foi a existência de valor

Muito antes de o tema ganhar escala institucional, já era possível observar, na prática, que as marcas e outros ativos intangíveis tinham capacidade de sustentar operações financeiras.

Nos anos 1990, ainda no ambiente bancário enquanto atuava no Lloyds Bank Plc., essa intuição começou a tomar forma mais concreta. A proposta que formulei e defendi no então ousado livro O Império das Marcas – Como alavancar o maior patrimônio da economia global, defendia a utilização de marcas como instrumentos de captação, os quais denominei à época como brand bonds. A proposta partia de uma premissa direta: ativos intangíveis sólidos carregam valor econômico real e, portanto, poderiam ser mobilizados financeiramente.

Essa linha de pensamento evoluiu ao longo de décadas de prática de valuation de intangíveis, investigação e desenvolvimento metodológico. Houve, paralelamente, tentativas iniciais, quase inevitáveis, de transformar a lógica ideal, quase artesanal, em modelos estruturados e replicáveis, capazes de traduzir o valor intangível em fórmulas estáveis.

O tempo provou que era uma ambição legítima. Infelizmente, comprovou também que isso ainda era insuficiente.

A experiência ensina onde a teoria tenta simplificar demais

A avaliação de ativos tangíveis apoia-se em referências relativamente objetivas: comparáveis de mercado, custos de reposição e fluxos previsíveis, muitas vezes reformados para executar as avaliações de ativos intangíveis com bases sólidas, todavia combinadas às reflexões aprendidas com a meturidade. Por serem bens que operam em outras dimensões, sem essa abordagem não há como avaliar sem se enganar. E isso fica bem claro no estudo patrocinado pela EUIPO. Ainda que de maneira cifrada para quem está iniciando.

O valor das PIs depende de contexto, posicionamento, execução, percepção e timing. Ele nunca residirá apenas no ativo em si ajustado nas células das planilhas, uma vez que está ancorado em um complexo  sistema no qual estiver inserido. E o mais importante: em contextos que ele ainda não opera com as competências que tem, como elaborei em profundidade no novo livro O Que Faltava Ao Valuation – Porque Onde há Significado, Há Valor.

Ao longo de mais de três décadas de prática, tornou-se evidente que não há mesmo a possibilidade de que modelos “prêt-à-porter” sejam capazes de capturar, de forma esclarecedora e integral, o valor de um ativo intangível sem a leitura e interpretação de seu valor estendido.

Não por falta de sofisticação metodológica. Mas porque o objeto em si sempre resistirá à qualquer tentativa de captura estática.

O valuation ótimo de propriedade intelectual funciona, na melhor das práticas, como um retrato: uma representação válida de um determinado momento, sob determinadas condições.

Para ampliar esse contexto, o valuation precisa ser revisitado, ajustado, e, em alguns casos, abandonado. Daí a necessidade de que ele opere num continuum, como uma framework que vigia e atualiza o ativo conforme o seu ecossistema vá exigindo. Eis o objetivo proposto pela ferramenta Brand Equity Navigator™.

O que o relatório EUIPO explicita. E o que ele sugere implicitamente

O avanço recente das discussões na Europa é relevante, exatamente por reconhecer, ainda que de forma sucinta, esse conjunto de limitações.

O relatório da EUIPO identifica, e até reitera com precisão, os principais entraves ao desenvolvimento do IP-backed finance: a assimetria de informação, a ausência de dados comparáveis, a fragilidade de mercados secundários e, sobretudo, a complexidade inerente à avaliação desses ativos.

Há, porém, uma leitura mais profunda possível.

Esses obstáculos não são apenas falhas ou imaturidade de mercado. Eles são consequências diretas da natureza dos ativos em questão, mas também da indiferença dos conselhos e das gerências dessa questão. Frequentemente, isso ocorre em favor da valorização de produtos financeiros clássicos de captação de recursos.

Sim, os ativos de propriedade intelectual não são padronizáveis e monetizáveis no mesmo nível e sentido de utilidade dos produtos financeiros tradicionais e ativos físicos.

O que eventualmente ainda incomoda parte da cultura gerencial mais preparada, é que, geralmente, os ativos de PI não são plenamente transferíveis sem que haja perda de valor. Por sua natureza, e excetuando o fato de que já não tenham sido transacionados em M&A ou monetizados como garantias de empréstimos, eles não possuem histórico transacional (track-record) suficiente para gerar conforto estatístico. Mas isso não significa que tal risco de assimetria não possa ser controlado.

Acima de tudo, quando se compreende em profundidade metodológica que, por não são estáticos, obrigam a adoção de uma infraestrutura gerencial em que não apenas o marketing, vendas, despesas e lucros pontuem valor.

Os avançados recursos de IA podem ajudar nesse processo. Não podem, ainda, tomar o lugar do pensamento humano, em que a sensibilidade aos dados é que determina qualquer tomada de decisão.

O verdadeiro desafio: transformar valor em confiança.

Se há uma conclusão prática que emerge dessa trajetória, tanto da experiência quanto das iniciativas institucionais, é que o problema central não está em identificar valor.

Está em torná-lo defensável e confiável para terceiros.

Aprendi na prática que o sistema financeiro não opera apenas sobre ativos. Ele opera sobre confiança estruturada.

É por isso que o desenvolvimento do IP-backed finance depende menos de encontrar a “melhor metodologia” e muito mais de construir uma ótima infraestrutura:

  • mecanismos de disclosure consistentes;

  • padrões mínimos de avaliação;

  • instrumentos de mitigação de riscos;

  • bases de dados confiáveis e controláveis;

  • e, sobretudo, especialistas capazes de ponderar e interpretar. Não apenas calcular.

O próprio relatório europeu propõe uma sequência lógica: tornar o IP visível, atribuir valor, viabilizar financiamento, construir dados e coordenar o sistema. No limite, essa sequência é um processo de construção de narrativa de valuation com foco em estabelecer uma base de confiança.

Para onde tudo isso nos leva

Para as empresas, a implicação é direta e imediata. Grande parte do valor já existe, ainda que permaneça invisível ou subestruturado do ponto de vista financeiro. Isso significa, na prática, um capital não acessado.

Para as instituições financeiras, o desafio é igualmente claro.

Os ativos que mais crescem em relevância econômica são, justamente, aqueles para os quais ainda não existem ferramentas plenamente maduras de análise, precificação e garantia. Todavia, insistir em ignorá-los não elimina o risco.

Apenas desloca o capital para onde há mais conforto. Não necessariamente com mais valor e segurança.

O valor que se sustenta. Mas que não se fixa na mente.

Há uma formulação clássica que ajuda a sintetizar esse paradoxo:

aquilo que é mais valioso é, muitas vezes, o que menos se deixa capturar.

Ativos intangíveis não são menos reais por serem voláteis, contextuais ou dependentes de percepção. Mas exigem uma mudança profunda na forma como são compreendidos, avaliados e financiados.

O IP-backed finance não é apenas uma inovação técnica. É uma adaptação inevitável daquilo o que se propunha com os ‘brand bonds’ de 1994.

É importante destacar e reconhecer que o valor já migrou. Agora, o desafio é construir as estruturas capazes de acompanhá-lo e geri-lo com método, sem a ilusão de que ele possa, algum dia, ser cravejado a uma estrutura empresarial que não evolui com ele.

©2026 José Roberto Martins, fundador da Global Brands®, uma das mais tradicionais empresas independentes de consultoria da América Latina,
com 31 anos de atuação. É autor de múltiplos livros sobre marcas, intangíveis e estratégia, incluindo O Que Faltava ao Valuation (2026).
Como Administrador, atua como perito e parecerista em processos judiciais, arbitragens e finanças envolvendo ativos intangíveis.

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