EUIPO IP-Backed Finance: entre o valor invisível, a dificuldade de capturá-lo e alavancá-lo.
Há um desalinhamento silencioso no centro da economia contemporânea.
Nunca tivemos tantos ativos intangíveis concentrando valor.
Marcas, tecnologias, propriedade intelectual, dados, software e, mais recentemente, inteligência artificial, passaram a representar parcela crescente do valor econômico das empresas. Em economias mais avançadas, os ativos intangíveis podem responder por aproximadamente 90% do valor corporativo.
Paradoxalmente, porém, grande parte desse valor ainda encontra dificuldade para ser reconhecida, precificada e, sobretudo, utilizada como instrumento de acesso ao capital.
É esse desalinhamento que torna particularmente relevante o debate sobre IP-backed finance.
O relatório IP-backed finance in Europe: State of Play and Future Perspectives – Towards a Functional European IP Finance Market, publicado pela EUIPO, reconhece a dimensão do problema: embora a propriedade intelectual esteja no centro da criação de valor contemporânea, seu uso como base para financiamentos ainda permanece muito aquém de seu potencial.
A ideia parece simples: utilizar ativos de propriedade intelectual como suporte para crédito, garantias ou estruturas financeiras de captação.
Mas a simplicidade termina quando se tenta transformar o ativo em uma garantia que terceiros estejam dispostos a aceitar.
O problema não é a existência de valor
O valor econômico dos intangíveis não é uma descoberta recente.
Muito antes de a expressão IP-backed finance ganhar a relevância institucional que hoje começa a adquirir, já se discutia a possibilidade de utilizar marcas e outros ativos intangíveis como instrumentos capazes de sustentar operações financeiras.
Em 1994, ainda no Lloyds Bank, essa questão começou a tomar uma forma mais concreta em minha trajetória profissional. A reflexão posteriormente apresentada no livro O Império das Marcas – Como alavancar o maior patrimônio da economia global (1994) partia de uma pergunta simples: se uma marca pode produzir valor econômico, por que não poderia também participar da estruturação de capital?
Foi nesse contexto que formulei o conceito de brand bonds, instrumentos financeiros lastreados em marcas e outros ativos intangíveis.
Não se tratava de antecipar o futuro por si só. Tratava-se de levar às últimas consequências uma constatação que o mercado ainda tinha dificuldade de incorporar: intangíveis fortes carregam valor econômico real e podem, em determinadas circunstâncias, ser mobilizados financeiramente.
Três décadas de valuation, pesquisa e aplicação prática ajudaram a revelar, entretanto, que reconhecer essa possibilidade é apenas o primeiro passo.
O desafio seguinte é muito maior.
Do valor econômico ao valor financeiro
Uma marca pode ter enorme importância econômica e, ainda assim, não ser imediatamente viável para servir como collateral.
Essa distinção é fundamental.
O sistema financeiro não financia simplesmente aquilo que possui valor. Ele financia aquilo cujo valor consegue compreender, avaliar, acompanhar e, principalmente, defender em diferentes cenários de risco.
É justamente aqui que os intangíveis desafiam modelos concebidos para ativos de natureza mais previsível.
Um imóvel pode ser comparado com outros imóveis. Uma máquina pode ter custo de reposição. Determinados ativos financeiros possuem mercados líquidos e referências de preço contínuas.
Marcas, patentes, bases de dados, tecnologias e outros ativos intelectuais operam de maneira diferente.
Seu valor depende do contexto em que estão inseridos: posicionamento, capacidade de extensão, mercado, percepção, exclusividade, potencial de geração de receita, proteção jurídica, obsolescência, sinergias e, muitas vezes, da própria competência da organização que os explora.
Por isso, transportar mecanicamente métodos concebidos para outros tipos de ativos pode produzir um número tecnicamente defensável e atrativo, mas economicamente pouco esclarecedor.
O número é necessário. Mas não é suficiente.
O que a experiência acrescenta à metodologia.
Ao longo de mais de três décadas de avaliação de intangíveis pela Global Brands® , uma conclusão tornou-se particularmente clara: não existe um modelo prêt-à-porter capaz de capturar integralmente o valor de um ativo cuja natureza é contextual e dinâmica.
Mas isso não diminui a importância de uma metodologia bem ponderada e construída.
Ao contrário.
Quanto mais complexo o ativo, maior a necessidade de uma metodologia consistente, mas também maior a necessidade de julgamento sobre as premissas que alimentam essa metodologia.
O valuation de um intangível é, nesse sentido, semelhante a um retrato.
Ele pode representar adequadamente o ativo em determinado momento e sob luzes mais ou menos intensas. Mas isso não significa que aquele valor permanecerá inalterado quando o mercado, a estratégia, a tecnologia ou o comportamento dos consumidores mudarem.
Por isso, nunca encaramos o valuation de intangíveis como evento isolado de um contexto, mas sim como parte de um processo.
É essa lógica que está na origem da proposta do Brand Equity Navigator™: acompanhar, interpretar e atualizar o valor de ativos intangíveis à medida que o contexto que lhes dá significado também evolui.
O verdadeiro desafio: transformar valor em confiança.
O sistema financeiro não opera apenas sobre ativos.
Opera sobre confiança estruturada.
Por isso, o avanço do IP-backed finance dependerá menos da busca por uma suposta “metodologia perfeita”, e mais da construção de um ambiente em que o valor dos ativos possa ser compreendido e monitorado.
Entendemos que isso exigirá, entre outros elementos:
-
disclosure consistente sobre os ativos e suas condições;
-
padrões de avaliação suficientemente robustos;
-
mecanismos de mitigação e monitora mento de riscos;
-
bases de dados confiáveis;
-
governança sobre os ativos e suas informações;
-
e, sobretudo, profissionais capazes de interpretar, e não apenas calcular.
A sequência sugerida pela discussão europeia é bastante reveladora: tornar o IP visível, atribuir-lhe valor, viabilizar financiamento, construir dados e coordenar o ecossistema.
No fundo, trata-se de transformar valor econômico em confiança financeira.
E o que isso significa para as empresas?
Aqui está, talvez, a consequência mais importante dessa discussão.
Uma empresa não precisa esperar que o mercado financeiro amadureça para começar a organizar os seus ativos intangíveis.
Pode (e deveria!) começar bem antes.
Antes de buscar crédito, uma operação de sale & leaseback intelectual, uma securitização, uma estrutura de garantia ou qualquer outra forma de monetização, a empresa precisa responder perguntas fundamentais:
Quais intangíveis realmente possui?
Qual é a contribuição econômica de cada um?
Quanto valem sob diferentes premissas e contextos?
Quais riscos podem reduzir esse valor?
Que evidências permitem defendê-lo perante terceiros?
Essa preparação muda a posição da empresa.
Em vez de simplesmente procurar capital e tentar convencer o financiador de que seus intangíveis têm valor, ela passa a apresentar um ativo previamente identificado, qualificado, avaliado e contextualizado.
É uma diferença importante.
Porque o caminho para transformar intangíveis em collateral começa muito antes da negociação com o banco ou com o investidor.
Começa no próprio balanço estratégico da empresa.
Para as instituições financeiras, a oportunidade é igualmente relevante
Os ativos que mais crescem em importância econômica são justamente aqueles para os quais ainda existem menos referências tradicionais de análise, precificação e garantia.
Ignorá-los, entretanto, não elimina o risco.
Apenas desloca a decisão para ativos nos quais existe maior conforto histórico, que nem sempre corresponde a maior valor econômico ou menor risco.
O desenvolvimento do IP-backed finance representa, portanto, uma extraordinária oportunidade de aproximação entre o sistema financeiro e a economia que efetivamente está sendo construída.
Mas essa aproximação exigirá novas competências.
Não apenas financeiras.
Também jurídicas, tecnológicas, mercadológicas, contábeis e, sobretudo, avaliativas.
Da ideia dos brand bonds à infraestrutura do valor
Há uma continuidade interessante nessa trajetória.
Em 1994, a ideia dos brand bonds partia da possibilidade de que marcas e outros intangíveis pudessem participar da estrutura de capital.
Hoje, a discussão sobre IP-backed finance recoloca essa possibilidade em uma escala muito mais ampla e institucional.
A questão, entretanto, amadureceu.
Já não basta perguntar:
“Podemos alavancar um ativo intangível?”
É preciso perguntar:
“Temos informação, metodologia, governança e confiança suficientes para fazê-lo de maneira responsável?”
Essa é uma pergunta muito mais sofisticada.
E também muito mais útil.
O valor já migrou
Há uma formulação que sintetiza bem o paradoxo:
Aquilo que é mais valioso é, muitas vezes, o que menos se deixa capturar.
Os intangíveis não são menos reais porque são contextuais, dinâmicos ou dependentes de percepção.
São apenas diferentes.
E justamente por isso exigem uma forma diferente de serem compreendidos.
O IP-backed finance pode representar uma nova fronteira de acesso ao capital. Mas nenhuma empresa deveria chegar a ela começando pelo financiamento.
Deve começar pelo próprio ativo:
identificá-lo, qualificá-lo, avaliá-lo e compreender as condições que sustentam seu valor.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas financeira.
Torna-se estratégica.
Em 1994, os brand bonds partiram de uma pergunta que hoje ganha nova dimensão: se marcas e outros intangíveis produzem valor econômico, por que não poderiam também ajudar a sustentar capital?
Três décadas depois, a pergunta permanece válida.
O que mudou foi a escala, a diversidade dos ativos e, sobretudo, a necessidade de construir mecanismos capazes de transformar valor econômico em valor financeiro confiável.
O valor já migrou para os intangíveis.
Agora, cabe às empresas desenvolver a capacidade de enxergá-lo, avaliá-lo e, quando fizer sentido, alavancá-lo.
E, talvez mais importante, fazê-lo com método suficiente para que o valor não dependa apenas daquilo que a empresa acredita possuir, mas daquilo que consegue demonstrar, defender e sustentar perante terceiros.

©2026 José Roberto Martins, fundador da Global Brands®, uma das mais tradicionais empresas independentes de consultoria da América Latina,
com 31 anos de atuação. É autor de múltiplos livros sobre marcas, intangíveis e estratégia, incluindo O Que Faltava ao Valuation (2026).
Como Administrador, atua como perito e parecerista em processos judiciais, arbitragens e finanças envolvendo ativos intangíveis.
#globalbrandsframework